Árvore genealógica
Ainda antes dos anos 2010 eu encontrei um site no qual você poderia montar sua árvore genealógica digital. Na época, esse tipo de site era uma coisa incrível. Hoje em dia, nada nos surpreende mais tanto em termos de internet, mas em um momento ainda anterior aos smartphones serem populares no Brasil, quaisquer serviços online como esses poderiam gerar euforia.
Euforia essa que para mim durou muito pouco, pois a minha página ficou pegando poeira desde que preenchi minha própria árvore online.
Tendo se passado muito tempo, hoje, literalmente hoje, 13 de outubro, vi um e-mail recebido desse site me informando que alguém no Canadá, com quem não tenho parentesco nenhum, (????) teria completado com mais informações sobre o pai de meu pai. Verificando, notei que realmente era a mesma pessoa (o que deu um "match" entre minhas informações primeiras e as novas) e então acessei aquela árvore antiga que construí, ao mesmo tempo em que recebia avisos do site sobre novas correspondências familiares, agora com relação à mãe de meu pai. Assim, pude descobrir (porque outros parentes meus também usam e inseriram informações) que minha trisavó se chamava Marianna e minha bisavó, Ninfa. Na verdade, sobre essa última, meu pai já comentava um pouco, mas aí veio a confirmação.
Eu fiquei encantada com isso, em saber mais sobre as mulheres da minha família, e foi sobre elas que mais me interessei.
Até anotei, em uma árvore muito rudimentar, estilo Mapa Mental, nossos nomes de solteira, em ordem decrescente, da trisa para neta. Senti uma vontade de conhecê-las melhor, de saber como era a vida delas, o que elas sentiam, pensavam, faziam ou o que queriam ter feito. Imaginei a pobreza em que muito provavelmente viveram, os motivos que tiveram para sorrir e se choravam quando as coisas não davam certo.
Fantasiei também sobre como foram tratadas por seus pais e maridos e sobre o que pensariam se soubessem que eu tive o prazer de meu marido adotar também meu sobrenome de família.
Pensei em quantos filhos tiveram exatamente, a alegria e a dor que as envolveu no nascimento de cada um... Ou até na morte de alguns... Quis ter acesso aos diários que talvez escreveram, e depois me perguntei se tiveram a oportunidade de aprender a escrever.
Quis ouvir suas vozes falando alemão, ou polonês, ou romeno, ou russo, ou um dialeto que misturasse todas ou algumas dessas línguas. Todas elas nasceram em uma região conturbada. Minha avó, sobre quem mais sei, nasceu em uma região que já pertenceu à Rússia, à Romênia e agora faz parte da Ucrânia, provavelmente seu pai era polonês e sua mãe, alemã ou austríaca. E só agora me dei conta que talvez, se estivesse viva, ela talvez ficasse mexida com a Guerra atual. De novo, outra guerra, para quem foi recém-nascida da Primeira, viveu durante a Segunda e a Guerra Fria.
Foi uma conexão interessante essa, pela árvore genealógica digital, mesmo tendo fotos só de minha avó e pouquíssimas informações das antecessoras. Me senti um pouco mais completa, de certa forma, e desejei que pudesse haver uma máquina do tempo que nos reunisse a todas com a mesma idade, em um mesmo lugar, com uma língua em comum para uma melhor comunicação verbal. Ao mesmo tempo em que senti esse elo e também uma gratidão e admiração por terem conseguido sobreviver e proporcionado, indiretamente, a minha própria vida, senti um vazio dilacerante ao olhar o outro lado da árvore.
Do meu lado materno, as informações não iam além do nome completo e data de nascimento dos pais da minha mãe. Imagino que isso já seja bem mais do que muita gente saiba. Porém, a dor maior reside no fato de que sobre a família de origem europeia eu sei muito, mas a família de origens africana e indígena sei quase nada.
Minha avó materna é viva ainda, lembra muito sobre sua vida, desde o início, e ela já nos contou muita coisa, mas não o suficiente para explorarmos mais. Até mesmo seu local de nascimento é um tanto quanto incerto, sem contar os erros comuns cometidos em registros cartoriais antigamente. Meu avô materno faleceu há 20 anos e, tendo vivido uma vida conturbada, por um tempo quase nômade até, sua presença para os filhos não foi a ideal. História comum a muitos de nós, sejamos os netos, os pais ou até mesmo os avós. Porém, apesar dos conflitos e dores advindas do passado, creio que minha mãe sempre quisesse saber mais, e eu também herdei essa curiosidade/necessidade. Por um tempo curto, um tio-avô meu, que também acabou falecendo pouco tempo depois de nos encontrarmos com ele, relatou mais episódios da infância dele e do irmão, trazendo novas perspectivas e elucidando o desamparo que sentiram com os revezes da vida. Histórias sofridas, intensas, perguntas que nunca tiveram respostas, e que provavelmente permanecerão assim também para nós, descendentes.
Por que será que a História coletiva dos europeus possui mais detalhes, costuma ser mais completa, inclusive as histórias familiares de nossos ancestrais brancos?
Minha árvore genealógica é prova viva de que impedir um povo (no meu caso, sendo muito generalista, dois povos: africanos e indígenas) de ter acesso ao saber de sua história ancestral é uma violência simbólica cujas cicatrizes são completamente invisíveis, quando não totalmente desconhecidas, porém, cujas dores ficam gravadas em nossos corpos físicos e memoriais por hereditariedade. Impedir determinados povos de terem suas histórias perpetuadas, registradas e celebradas é uma forma de apagar esses sujeitos também da História coletiva e, consequentemente, minar a confiança, o sentimento de merecimento e um pouco da paz de seus descendentes. Isso me gera uma certa revolta, porque sei da infância difícil de meus avós maternos, e muito abuso que eles sofreram deveu-se, certamente, às origens não-elitizadas que tiveram.
Me entristece ver em meu rosto a feição do europeu e as feições indígenas e negras, porém, sabendo de onde vieram somente as primeiras.
Me indigna um tanto sentir a vida de certos modos que sinto que não são europeus, mas sim africanos e indígenas. Me impressiona que tantos de meus compatriotas desdenhem tão fortemente dessas origens que são minhas, talvez suas, são nossas, do Brasil!
Desconhecer suas as narrativas familiares, seja por espontânea vontade ou por insuficiência de informações, pode levar a um desconhecimento de si também. Assim me senti, como se houvessem peças de um quebra-cabeça faltando. Entendo que talvez eu jamais seja capaz de encontrá-las, mesmo que eu tenha seriamente pensado em buscá-las daqui em diante. Contudo, não posso viver limitada por essas peças desencontradas. Posso sentir esse vazio, posso buscar enquanto valer a pena, mas escolho honrar Marianna (trisa), Ninfa (bisa), Ágata (vó), Alfonso (vô), Rosalina (vó), Darcy (vô), e também aquelas e aqueles, trisas e bisas maternos, amados e presentes, cujos nomes e faces desconheço, mas que carrego dentro e fora. Vocês vivem em mim e na minha consciência de suas trajetórias.
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