O pequeno grande post das coisas não ditas
Há mais ou menos duas semanas iniciei a leitura do livro "O pequeno caderno das coisas não ditas", de Clare Pooley. Segundo o Kindle, li 51% da obra, portanto, o que vou escrever aqui será a partir do que pude conhecer da história. Quem sabe, se eu achar que vale, escrevo novo post ao terminar. Não incluí spoilers, somente informações sobre o enredo que não prejudicariam a surpresa da leitura.
Contextualizar o motivo de falar sobre o livro é essencial, então, vamos lá!
Selecionei esse livro para a leitura cerca de 5, 6 meses atrás. Eu vinha buscando livros de ficção nos quais a SOLIDÃO fosse a temática principal. Não lembro como, nessa busca, uma das sugestões era esse livro. Sem tempo de lê-lo imediatamente, somente baixei a amostra grátis e segui com a vida.
Muita coisa (intensa) aconteceu nesse meio tempo (quem sabe em algum momento postarei sobre isso), e tudo convergiu para eu retomar esse livro em meio a tantos outros. Quando o busquei, vinha sentindo solidão com uma constância e intensidade quase insuportáveis, mesmo tendo pessoas incríveis ao meu redor. Eu estava me sentindo engessada por esse sentimento, o qual estava até me impedindo de aproveitar verdadeiramente o tempo do qual desfrutava com as pessoas no trabalho e em casa. Meu primeiro impulso em muitas situações sociais era me isolar, mas nem sempre era o que eu fazia de fato. Encontros com amigos, então? Simplesmente zero ou muito perto de zero. Decepcionada pela distância de tantas pessoas que um dia fizeram parte da minha vida, porque elas se afastaram de mim ou eu delas, eu vinha dando mais valor ao que me faltava do que ao que eu tinha (tenho)...
Eis que uma fase de transição se iniciou em minha vida, no dia do meu aniversário deste ano, e então toda a dor que estava alojada em meu sistema há anos teve que começar a ser trabalhada. "O pequeno caderno..." reapareceu em minha biblioteca como um livro leve, agradável, que poderia me proporcionar momentos de lazer e que, mais que isso, passou a ser também uma oportunidade de refletir sobre a solidão e outros temas.
Para começar, o título me lembra uma famosa frase de Leminski: "Repara bem no que não digo". Curto o poeta curitibano desde bem novinha e sempre achei essa frase emblemática, ao mesmo tempo misteriosa e tão clara! Portanto, a ideia de um caderno que traz coisas não ditas me instigou. E realmente, nas primeiras páginas você descobre que um dos personagens principais cria o "Projeto Autenticidade" escrevendo nesse caderno confissões sobre sua vida. Basicamente, ele expõe toda sua vulnerabilidade, conta os seus momentos mais desafiadores e como se sente de verdade sobre tudo. A partir disso, então, esse caderno que se tornou público, pois que deixado em uma mesa de um café, começa a receber confissões de várias pessoas que não se conhecem e, lá pelas tantas, seus destinos acabam sendo cruzados de uma forma que, por enquanto, está bem interessante.
Vulnerabilidade então se consolida como a outra face da moeda de todas as emoções e sentimentos (que, diga-se de passagem, buscamos todos esconder uns dos outros) os quais são desnudados de uma forma muito humana pela escrita de Pooley. Sentimentos de fracasso, insuficiência, insatisfação, culpa, vergonha, inadequação, remorso, solidão, frustração aparecem nas trajetórias dos personagens mas, acima de tudo, aparecem em episódios de nossas próprias histórias pessoais. Nós (eu e você, seres reais) e eles (personagens) temos em comum que simplesmente buscamos esconder ao máximo esses sentimentos avassaladores e as situações de vida que os perpassam. Escondemos dos outros e, muitas vezes, de nós próprios. Nosso contexto, permeado por uma vida digital intensa e exigente, reforça as narrativas pessoais descoladas da realidade e exponencializa o sofrimento que vivenciamos ao percebermos que nossa vida não é (e nunca será) perfeita. Afinal, se fulana sempre posta suas viagens, conquistas profissionais, relacionamentos perfeitos, a pele sempre hidratada e reluzente, que valor tenho eu? Se beltrano exibe o carro zero, a cerveja e churrasco no final de semana, o traje impecável do dia a dia, devo ser eu quem sou incompetente, não é?
A grama do vizinho é sempre mais verde, diz o ditado, e na obra de Clare Pooley, na metade que li até agora, esse ditado embasa o enredo. Mas não se enganem: ela vai muito mais fundo. E aqui entra a parte que mais me identifiquei.
Todos os personagens possuem vidas interessantes
Mesmo que machucados ou até alienados de suas dores, todos carregam virtudes e talentos que quando bem canalizados beneficiam não só a eles mesmos mas aos outros em volta também. Isso desencadeia um processo de admiração entre eles e de renovação da autoestima de cada um.
Todos os personagens têm algo a agradecer
Ou muitas coisas a agradecer. Alguns deles só se dão conta disso quando vêem alguém querendo ter o que eles têm. A comparação ao outro parece infinita...
Nenhum dos personagens está plenamente satisfeito
Talvez porque a busca faz parte da natureza humana. Sempre queremos mais e melhor. Mas a partir do livro podemos refletir: qual é a insatisfação saudável e a insatisfação não-saudável?
Se tivessem que expor suas vidas reais segundo a segundo, nas redes sociais, nenhum deles faria isso...
Inclusive, uma das personagens se preocupa muito com a repercussão que sua confissão terá quando for lida no caderno por olhos estranhos, visto que expor sua vulnerabilidade é uma tarefa muito difícil.
E para quem é fácil se mostrar vulnerável? Ainda mais em nossos tempos de redes sociais.
Vulnerabilidade pode ser força. Sua maior força. Pensando um pouco mais assim, comecei a dar espaço para minhas dores. E este blog aqui é só um dos passos concretos dessa minha fase. Traduzir a dor em palavras é um jeito muito especial de lidar com tudo isso. E me expor ao julgamento alheio também, porque textos como esse são os que menos dão like. Ler um textão na internet, então? Perda de tempo... Pra quê? E quem sabe como quem me conhece vai me tratar ao me ver sabendo de tantos pormenores... Essa pessoa vai saber mais de mim do que eu sei sobre ela... E daí? Tem vezes que se sentir autêntica é muito melhor do que se sentir protegida.
Creio que precisamos exercitar mais nossas vulnerabilidades, sabe? Tanto se colocar nessa situação quanto acolher a vulnerabilidade do outro. Deve ser isso que é humanidade, né? Penso nisso como um exercício de viver melhor, mesmo, um jeito até de se aproximar das pessoas...
Me parece que a pandemia e a "entelação" excessiva ampliaram o afastamento do contato humano real e verdadeiro, do toque, do cheiro, do marejamento dos olhos, da perna inquieta que fica escondida embaixo da mesa na vídeo chamada...
Precisamos nos dar a oportunidade de responder ao outro "Não, eu não estou bem" sem medo de se tornar um fardo para a outra pessoa. De ouvir "não, eu não estou bem", sem medo de responder que também não está e perceber que, na verdade, ninguém é melhor que ninguém e que construir uma vida perfeita no digital deveria ser só isso mesmo: uma ficção. De que modo e por quais motivos queremos nos conectar com os outros? Precisamos sempre nos sentir piores ou melhores que o outro? A força da vulnerabilidade pode se tornar conexão genuína. Não é fácil nem ideal, mas pode ser menos solitária a vulnerável e autêntica vida do mundo real. ✿
Qual o seu jeito especial de acolher sua vulnerabilidade?
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