Dias nublados e outros incômodos...

     Escrever um texto sobre essa camada de nuvens inflexíveis que tampa Curitiba nos últimos dias (semanas?) parece ser somente um jeito bonitinho de reclamar sobre o clima sem estar de fato reclamando.

    Se eu digitasse aqui "Nossa, que saco esses dias sem sol, não aguento mais!" além de não fazer muita diferença para você que me lê, pois suponho que se você mora aqui também deve estar complicado, ainda me deixaria com a desagradável desconfiança de que não consigo gerenciar nem meu mínimo desconforto com um dos fenômenos mais elementares da natureza.

    Mas eu acabei digitando mesmo assim o que eu disse que não cairia muito bem. Eu já reclamei. E se eu não tivesse digitado a reclamação, no mínimo eu a teria pensado. Como de fato eu pensei. E continuo pensando sobre isso, porque não bastasse acordar todos os dias me sentindo numa estufa de desânimo e "gotículas de água condensadas e acumuladas na troposfera", eu ainda resolvi escrever sobre isso. Ótima ideia.

    Foi assim, ó: pensei em como ter criado esse blog essa semana foi um negócio muito massa. Fazia tanto tempo que eu não me sentia tão conectada com alguma coisa que eu estou fazendo. Pensei que é bom ter um espaço para eu botar pra fora e como quero que aqui seja um espaço de criatividade também. Abri "nova postagem" e me comprometi a escrever muito criativamente sobre algo aparentemente banal: o impacto emocional desses dias sem sol (e doídamente gelados). Digitei umas poucas palavras, tentando empregar o meu melhor vocabulário, a minha visão mais poética e sensível sobre o referido fenômeno e... o texto não surgiu. Aí decidi escrever sem querer caprichar muito, tentando deixar acontecer naturalmente, e o texto fluiu...

    Será que outros incômodos da nossa vida não são metaforicamente traduzidos nesses dias nublados? Na ânsia de conseguirmos atingir alta performance em nossas vidas, de conquistarmos nossos sonhos, alcançarmos nossos mais ousados objetivos e, por fim, recebermos atenção e reconhecimento, nessa ânsia insana (gostei da aliteração), será que não tentamos de todos os jeitos disfarçar ou negar os pensamentos, emoções e sentimentos ruins? Como se, sei lá, eles fossem contaminar os poucos resultados positivos dessa cruzada pró-alta-performance? Ou seja: negamos espaço para o fracasso, tanto o social quanto o emocional. Eu me sentir mal, mesmo que só um pouquinho, é um sinal de que meu valor pode ser, no mínimo, contestado. Afinal, eu sou uma pessoa de alta-performance, veja, as coisas que eu conquistei até aqui provam isso!!!! Então, vou afastar o que desagrada meu coração, não vou olhar, não vou aceitar, mas vou reclamar! Reclamar, mas sem me permitir sentir isso que aperta meu peito, avassaladoramente. Aqui não tem isso! Não tem baixo astral (positividade tóxica que chama?), não tem recolhimento, não tem tempo ou motivo para dar atenção a isso (acolher). Eu não paro!!! Preciso estar sempre à altura dos meus diplomas, títulos, prêmios, etc, etc...

      Em algumas leituras espiritualizantes e fortalecedoras para mim, é recorrente essa questão de aceitar o que não podemos controlar. Isso pode ser facilmente relacionado ao fato de que esse céu anda implacavelmente cinzento. A força mais poderosa e menos manipulável talvez seja a natureza. Incontrolável é, ainda, o fato de esse céu me fazer sentir mal. Ou melhor, o fato de eu me sentir mal sob ele, porque o céu não fez nada pra mim, ele só tá lá, sendo, ele nem sabe que eu tô aqui e você aí. Portanto, minha opinião sobre ele é meramente a minha perspectiva, são esses óculos que estou usando ao vê-lo. São os meus pensamentos e emoções que estão "configurados" aqui de um jeito que a carranca acima da minha cabeça só representa um gatilho. (Convenhamos, também culturalmente esse céu recebeu o carinhoso apelido de "tempo feio".).

    Eu tenho dificuldade de apreciar esse céu. Eu tenho dificuldade de apreciar minhas emoções difíceis. E tudo bem, porque se eu soubesse fazer isso tão bem eu não seria ser humano. Mas quanto mais eu lutar contra tudo isso que eu sinto, penso e vivencio, mais esse desconforto aumentará. Quanto mais eu querer que saia sol, mais vou sofrer, porque a previsão do tempo não é nada animadora (e é só uma previsão! Incontrolável, lembra?). Quanto mais eu tentar escrever bonito, mais linhas em branco eu vou deixar. Curioso. 

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